SECRETARIA GERAL  .:. Mulher
Mulheres ainda enfrentam desigualdade no trabalho
AMANDA VALERI

O mundo mudou, e as mulheres também. Elas são maioria no País, quase cinco milhões a mais que os homens em todo o Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A jornada delas diária é tripla - divida entre trabalho, cuidados com os filhos e afazeres domésticos. É fato que a população feminina cresceu, mas as conquistas no mercado de trabalho, nem tanto.

Um dos principais termômetros dessa constatação é o salário: ele ainda continua menor do que o dos homens, mesmo quando há igualdade de escolaridade. Os números do último levantamento sobre o mercado de trabalho feminino, realizado pela Fundação Seade/Dieese, confirmou que há ainda uma grande disparidade quando o assunto é o dinheiro no final do mês.

O levantamento mostrou que o rendimento médio por hora das trabalhadoras corresponde a 74,6% do que ganham os homens no Distrito Federal (a maior diferença) e a 84,3% no Recife, a menor desigualdade apontada pelo estudo. A diferença também é gritante em outras quatro regiões metropolitanas do País - em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador o salário da mulher equivale a 77,83%, 83,75%, 77,62% e 83,78%, respectivamente, do atribuído aos homens.

Em São Paulo, as maiores correspondências entre os salários são verificadas entre aqueles com ensino fundamental completo ou médio incompleto (71,6%) e com graduação concluída (71,3%). |Isso acontece porque a presença das mulheres é instaurada em postos subalternos, desqualificados, com remuneração menor. Geralmente elas ocupam vagas que auxiliam, que complementam a renda dos homens|, analisou Ângela Maria Carneiro Araújo, professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp.

Na avaliação de Ângela Maria, essa diferença entre salários também é presente devido à entrada tardia da mulher no mercado de trabalho. |Se olharmos historicamente, a mulher tem uma trajetória recente no mercado de trabalho, cerca de 30 anos. Além disso, há muita setorização|, observou.

Taxa de Desemprego

Tal motivo é responsável também pela diferença na taxa de desemprego. Segundo a pesquisa, o desemprego masculino diminuiu em uma velocidade mais rápida em cinco das seis regiões metropolitanas do País analisadas pelas instituições. Para se ter uma idéia, em Belo Horizonte, no ano passado, o desemprego feminino atingiu 15,9% da PEA (População Economicamente Ativa), já o dos homens, porcentagem bem menor, alcançou 8,9%.

Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, a taxa de desemprego feminina ficou em 17,8%, e a masculina, 12,3%, a maior diferença dos últimos 19 anos. |São nichos de mercados ocupados por homens, como metalurgia e construção civil, em que a mulher tem mais dificuldade de entrar que impedem a inserção delas no mercado e contribui para o aumento da desigualdade|, afirmou o coordenador da área de pesquisas da Seade, Alexandre Loloian.

Nos anos de 2005 e 2006, do total de vagas criadas no mercado, 60% delas foram ocupadas por mulheres. Já no ano passado, esse porcentual caiu para 30%. Entretanto, nas seis regiões analisadas, a pesquisa destaca que o último ano caracterizou-se tanto pelo declínio do desemprego, quanto pela consolidação da predominância de mulheres no contingente de desempregados. Contudo, um dado positivo merece destaque, pelo menos na cidade de São Paulo: elas continuam a maioria dos trabalhadores no mercado. Os dados da pesquisa mostram que a participação do sexo feminino ficou em 55,1%.

Disponibilidade

Tanto Ângela Maria como Loloian sustentam que, apesar dos resultados positivos e das conquistas, ainda há muito preconceito contra a mulher no mercado de trabalho. |É muito claro que ainda persiste um preconceito. Além disso, tem outra dimensão que ainda continua pesando que é o cuidado doméstico. Os diretores de empresas enxergam que o homem tem mais disponibilidade no trabalho, para viajar, para realizar hora extra. Já a mulher é vista como uma profissional que tem atividades em casa, com os cuidados domésticos e ||piora|| quando ela tem filhos, pois a responsabilidade dentro de casa se torna ainda maior|, analisou a professora da Unicamp.

Para o coordenador de pesquisas do Seade, a falta de políticas públicas, como creches e escolas para crianças, contribuem para aumentar o abismo entre os dois sexos no mercado de trabalho. |A mulher que tem uma renda melhor contrata uma babá, paga uma escola particular para o filho, enquanto está no trabalho. Mas e o restante? É preciso igualar essa desigualdade, pois a mulher interrompe a sua trajetória na carreia quando engravida|, comentou Loloian.

A diretora da Organização Não-Governamental (ONG) Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA), Natália Mori, acredita que precisa ter uma sinergia entre o Estado, a família e o homem. |Eles deveriam trabalhar juntos para diminuir esta distância. O Estado precisa fornecer políticas públicas, a família e o homem precisam trabalhar em conjunto para ajudarem as mulheres na carga doméstica|, sustentou Natália Mori.

Famílias chefiadas por mulheres

A pesquisa das instituições mostrou que houve uma diminuição na cidade de São Paulo do número de famílias chefiadas por mulheres. Os números apontam que houve uma redução de 58,7%, em 2006, para 57,9%, no ano passado. Na avaliação da professora da Unicamp, a figura do homem como a principal fonte de renda ainda persiste na cultura brasileira. Outro entrave que as mulheres modernas ainda não conseguiram eliminar. |As tarefas domésticas ainda não são compartilhadas entre homens e mulheres. A figura do homem nos afazeres de casa aparece apenas como um auxiliar, declarou Ângela Maria. O coordenador de pesquisas do Seade apresentou o mesmo argumento: |Em países europeus podemos ver homens carregando carrinhos de bebês em diversos parques. Aqui, isso é uma coisa muito rara|, exemplificou Loloian.

Mas os resultados não podem ser encarados como uma batalha perdida. Apesar de a fragilidade ter deixado de existir há muito tempo e do abandono do antigo clichê de que mulher tem que estar perto do fogão, ainda há um longo caminho ainda a ser alcançado, para derrubar diversas barreiras de discriminação que ainda persistem. |Tem muito a ser conquistado. A sociedade precisa apagar esse viés preconceituoso muito grande com a mulher|, finalizou a professora da Unicamp.

Fonte: Agência Estado

 
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